Miguezim de Princesa


14/12/2011


 O sertão chora

 

 

 

MIGUEZIM DE PRINCESA

 


O poema foi musicado por Wilson Aragão, autor de Capim Guiné com Raul Seixas, e virou hino dos sem-terra:

 

A seca que abate a gente
tira a comida da mesa
o sertanejo (nordestino) humilhado,
não esconde sua tristeza:
finca a enxada no chão
e, naquele poeirão,
sobe um mundo de incerteza.

O sertanejo resiste,
forte como um pau-pereira
clamoroso é ao que se assiste
nesta nação brasileira,
onde uns têm tudo farto,
mulheres morrem de parto
nos braços de uma parteira.

Na seca a politicagem
dos coronéis faz parada
homens aqui são tratados
como se fossem boiada.
Triste sertão de "caboclo",
onde um voto vale pouco,
onde a vida vale nada.

Passa a seca vem a chuva
e nada de melhorar,
porque o governo nega
semente pra semear,
e o latifundiário,
pra aumentar o calvário
nega terra pra plantar.

Desrespeita-se a velhice
abandona-se a infância
as escolas desmoronam
por injúria ou traficância,
do saber poucos se apossam
e as criancinhas engrossam
o Exército da ignorância.

Terra que produz de tudo
- do feijão ao babaçu -
teu povo é escravizado
no açoite do couro cru;
come restos de ração,
bebe a lama do porão,
não tem roupa - anda nu.

Semblantes desfigurados,
corpos esqueléticos nus,
enquanto nutrem a esperança
num milagre de Jesus,
disputam pelas estradas
brutos já mortos, ossadas,
com bandos de urubus.

Asfora falou um dia
dos seios sem leite, murchos
das veias brancas, sem sangue,
que nem algodão - capuchos -,
enquanto reina a alarvia
da elite que um dia
terá de perder os luxos.
Sobre o autor

Miguezim de Princesa
Brasília/DF - Brasil, 45 anos
65 textos (9802 leituras)

Escrito por Miguezim às 13h25
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PARA GOSTAR DE LER

Miguezim de Princesa

Trabalho premiado no Projeto Mais Cultura de Literatura Popular, do Ministério da Cultura. O autor receberá R$ 7 mil e publicará 5 mil exemplares do poema.
I
Se o dinheiro está curto
Até pra comprar cueca
E nem de longe imagino
Visitar um sítio asteca,
Posso em sonhos viajar
Nos livros que encontrar
Dentro da biblioteca.

II
Pego um avião moderno
E saio rasgando o céu,
Entre cortinas de nuvens
Que mais se parecem um véu
Da noiva da esperança,
E vou me parar na França
Conhecendo a Torre Eiffel.

III
Num banquinho de madeira,
Sem tirar os pés da terra,
Nas letras do livro-sonho,
Que tanta grandeza encerra,
Com algumas páginas lidas
Vejo todas as batidas
Do Big Bang da Inglaterra.

IV
Num distante pé de serra
Alguém ouvirá meu grito
A saudar a Palestina,
Seus pastores com cabritos,
Em meio a tanta incerteza,
E mais à frente as belezas
Das pirâmides do Egito.

V
Viajo também nos braços
Do romanceiro de cá,
Das lendas e das estórias
Do povo do meu lugar,
Vou dormir com um poema
E me acordo com Iracema
De José de Alencar.

VI
Cante lá, que eu canto cá,
Dizia com firmeza e fé
O menestrel popular
Patativa do Assaré.
É estudado na França,
Seu livro é luta e esperança,
Mostra a vida como é.

VII
No Rio Grande do Norte,
Prosseguindo meu estudo,
Vou conhecendo a Iara
De belo corpo desnudo.
Pro sonho ficar mais quente,
Ela eu ganhei de presente
Do grande Câmara Cascudo.

VIII
Na vizinha Paraíba,
Vi João Grilo na subida;
Fui ao céu e ao inferno,
Que era um beco sem saída
Por Ariano criado
No enredo bem bolado
Auto da Compadecida.

IX
Nas páginas paraibanas,
Vi quanto Augusto sofreu
Ao escrever Versos Íntimos
No eterno Livro do EU;
Apurando o meu empenho,
De Zé Lins vi o Engenho
Cujo fogo já morreu.

X
Dancei frevo em Pernambuco
Em terreiro, praça e sala,
Maracatu, caboclinho,
Fiquei em ponto de bala,
Gilberto Freire, gentil,
Me apresentou o Brasil
Em Casa Grande e Senzala.

XI
Pelo século 19
Me enfurnei no sertão:
Conheci Maria Moura,
A valentia e a paixão
Que dobravam coronel.
Quem me contou foi Rachel
Na porteira do mourão.

XII
Com Aluizio Azevedo,
Numa Casa de Pensão,
Vi mulato de Cortiço
(Nossa miscigenação),
Andei com Gonçalves Dias,
Indianista da poesia,
Nas terras do Maranhão.

XIII
Fui parar nas Alagoas,
Terra de Graciliano,
Onde a cachorra baleia
Foi atrás de Fabiano,
Vidas Secas de lamentos,
Batalhas e sofrimentos,
Sem rumo, esperança e plano.

XIV
Vi o Sargento Getúlio
Tomado de valentia,
De posse de uma lazarina,
Caminhar de noite e dia,
Conduzindo sem clemência
Um preso na diligência
Entre Sergipe e Bahia.

XV
Quem contou foi João Ubaldo,
E o fez com maestria,
Bem depois de Jorge Amado,
Escritor-mor da Bahia,
Que soube falar de amores,
Crenças, culturas e dores
Com cheiros de maresia.

XVI
Vejo a Tenda dos Milagres,
Em noite de lua cheia;
Gabriela cheira a cravo
No fogo que incendeia;
Na Cidade Baixa a farra,
Molecagem e algazarra
Dos Capitães da Areia.

XVII
O Nordeste é muito rico
Em termos de criação:
Aqui servimos banquete
De puríssima inspiração.
Só porque nunca fui jeca,
Estou numa biblioteca
Com o mundo em minhas mãos.

Escrito por Miguezim às 09h48
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26/11/2011


AMORES PROIBIDOS

Miguezim de Princesa


Os amores proibidos rondam
os poetas como malassombros.
Invadem sonhos pela madrugadas,
com gestos os mais insinuantes.
Os amores proibidos incendeiam
versos livres ou metrificados.
Chegam de mansinho,
fingem não querer
e provocam desejos reprimidos.
Parecem fáceis, à mão,
possíveis, mas não são:
Uma imensa muralha aprisiona
o desejo que não passa de ser sonho.
Afinal, o que são os amores proibidos,
torturantes, infernais?
Os amores proibidos
são lagartas de fogo
na alma dos poetas.

Escrito por Miguezim às 16h19
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14/11/2011


VERSO-MENINO

MIGUEZIM DE PRINCESA

Meu verso passa ao largo das academias:
é rude, torto e desengonçado.
Imita passos - matuto apressado.
Tem pressa de passar da noite ao dia.

Engatinha, quer conhecer luzes e cores,
vozes e mais vozes, mundo estranho,
bebê contente na hora do banho
mergulhado em aromas bons de flores.

É ainda a marca da contradição:
brinca, fecha a cara, chora,
ri, ousa, briga, esmorece, anima.

É como a terra seca do sertão
e é fértil e mãe, quando a chuva não demora,
e faz brotar do chão botões de rima.

Escrito por Miguezim às 22h17
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11/11/2011


 

Águas da vida


Miguezim de Princesa
 


Eu quero me molhar na passarela,

Porque hoje é dia de calor.

Se eu canto o canto é pra vida bela,

As águas das lágrimas vêm sem amargor.

 
A minha tristeza é sem pesar,

Não digo a causa da minha alegria.

A festa é hoje e, se o amanhã chegar,

Digam que eu saí sem fantasia.
 
A água é parca em tanto mar,

Quem dera logo o Brasil chegasse.

Angola é distante, é só chorar:

Muchima dói sem mãe que o acalentasse.

Na dança da perpétua travessia
Morro de sede de beber justiça,

Água salobra da minha agonia,

Vinagre do meu cálice de injustiça.

 
Na escuridão do porão negreiro,

Somente a fé a me iluminar:

Cortejo Afro me banhando inteiro

Na festa em que senti me libertar.

 
Tanta água me banha a Bahia:

Kyanda Angola, mama Yemanjá,

Cortejo Afro, águas de poesia,

Bará Ajelu, Oxum e Oxalá.

 

Escrito por Miguezim às 09h11
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30/09/2011


AS LAVADEIRAS DA PIXILINGA

Miguezim de Princesa

As lavadeiras lindas, à vontade,
no mundo de bolhas de sabão,
entoam canções, contam lorotas
e falam dos maridos que se foram.[

As lavadeiras falam o tempo inteiro,
mas vêem muito pouco ao seu redor.
Só trabalham. E os peixes do Açude Velho
festejam em cambalhotas
sua presença.

Quem mais vê são os moleques,
escondidos por trás dos marmeleiros
e das tiriricas da Pixilinga:

Mulheres ávidas de prazer,
com as quais vivem sonhando,
dando cambalhotas como os peixes.

Escrito por Miguezim às 00h14
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21/09/2011



Os meus

Miguel Lucena

Sou jantar de mesa farta,
Três noites de forrozada,
Alegria de matuto,
Cantador de embolada,
Sou filho da nuvem cheia
Que concebe a invernada.
Meu companheiro é trovão
Famoso pai da coalhada;
Meu mar é açude velho
Em tempos de enxurrada.

Minha mulher é a lua
A passear pelo céu,
Sem batom, perfume ou ruge,
A roupa somente o véu
Daquela nuvem branquinha
Amiga do menestrel.
Quando o sol está dormindo,
Ela começa saindo
E, sempre a se insinuar,
Acorda os noivos poetas
Para a vida versejar.

O meu filho é o sorriso
Das crianças desprezadas
Quando encontram o paraíso
Nos braços de uma mãe amada.
A ele dou leite e pão
Farinha, cuscuz e pirão
Ribacão e carne assada,
Mesmo que não peça nada.
Imensamente feliz
Eu fico quando ele diz:
- Papai -, e dá uma risada.

A minha família é o povo
Que planta e milho e feijão,
Que acorda às 5 horas
Pro mode ganhar o pão,
Que parece uma sardinha
Espremido em condução,
Pedaço de mamulengo
Caindo da construção;
Que apanha do bandido,
Da polícia e do patrão.
Quem sabe em minha casa um dia
Num sarau de poesia
Vamos ter revolução.

(Luanda, Angola, 10/07/2006)


Escrito por Miguezim às 11h53
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09/09/2011


 

A Lista

Oswaldo Montenegro

Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
... Quantos você já não encontra mais...

Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você desistiu de sonhar!
Quantos amores jurados pra sempre
Quantos você conseguiu preservar...

Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora?
Hoje é do jeito que achou que seria
Quantos amigos você jogou fora?

Quantos mistérios que você sondava
Quantos você conseguiu entender?
Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos ninguém quer saber?

Quantas mentiras você condenava?
Quantas você teve que cometer?
Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você?

Quantas canções que você não cantava
Hoje assobia pra sobreviver?
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você?

Escrito por Miguezim às 23h23
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31/08/2011


Publicado por Tião Lucena em 31.08.2011

No tempo da minha infância

 

Ismael Gaião

No tempo da minha infância
Nossa vida era normal
Nunca me foi proibido
Comer muito açúcar ou sal
Hoje tudo é diferente
Sempre alguém ensina a gente
Que comer tudo faz mal

Bebi leite ao natural
Da minha vaca Quitéria
E nunca fiquei de cama
Com uma doença séria
As crianças de hoje em dia
Não bebem como eu bebia
Pra não pegar bactéria

A barriga da miséria
Tirei com tranquilidade
Do pão com manteiga e queijo
Hoje só resta a saudade
A vida ficou sem graça
Não se pode comer massa
Por causa da obesidade

Eu comi ovo à vontade
Sem ter contra indicação
Pois o tal colesterol
Pra mim nunca foi vilão
Hoje a vida é uma loucura
Dizem que qualquer gordura
Nos mata do coração

Com a modernização
Quase tudo é proibido
Pois sempre tem uma Lei
Que nos deixa reprimido
Fazendo tudo que eu fiz
Hoje me sinto feliz
Só por ter sobrevivido

Eu nunca fui impedido
De poder me divertir
E nas casas dos amigos
Eu entrava sem pedir
Não se temia a galera
E naquele tempo era
Proibido proibir

Vi o meu pai dirigir
Numa total confiança
Sem apoio, sem air-bag
Sem cinto de segurança
E eu no banco de trás
Solto, igualzinho aos demais
Fazia a maior festança

No meu tempo de criança
Por ter sido reprovado
Ninguém ia ao psicólogo
Nem se ficava frustrado
Quando isso acontecia
A gente só repetia
Até que fosse aprovado

Não tinha superdotado
Nem a tal dislexia
E a hiperatividade
É coisa que não se via
Falta de concentração
Se curava com carão
E disso ninguém morria

Nesse tempo se bebia
Água vinda da torneira
De uma fonte natural
Ou até de uma mangueira
E essa água engarrafada
Que diz-se esterilizada
Nunca entrou na nossa feira

Para a gente era besteira
Ter perna ou braço engessado
Ter alguns dentes partidos
Ou um joelho arranhado
Papai guardava veneno
Em um armário pequeno
Sem chave e sem cadeado

Nunca fui envenenado
Com as tintas dos brinquedos
Remédios e detergentes
Se guardavam, sem segredos
E descalço, na areia
Eu joguei bola de meia
Rasgando as pontas dos dedos

Aboli todos os medos
Apostando umas carreiras
Em carros de rolimã
Sem usar cotoveleiras
Pra correr de bicicleta
Nunca usei, feito um atleta,
Capacete e joelheiras

Entre outras brincadeiras
Brinquei de Carrinho de Mão
Estátua, Jogo da Velha
Bola de Gude e Pião
De mocinhos e Cawboys
E até de super-heróis
Que vi na televisão

Eu cantei Cai, Cai Balão,
Palma é palma, Pé é pé
Gata Pintada, Esta Rua
Pai Francisco e De Marré
Também cantei Tororó
Brinquei de Escravos de Jó
E o Sapo não lava o pé

Com anzol e jereré
Muitas vezes fui pescar
E só saía do rio
Pra ir pra casa jantar
Peixe nenhum eu pagava
Mas os banhos que eu tomava
Dão prazer em recordar

Tomava banho de mar
Na estação do verão
Quando papai nos levava
Em cima de um caminhão
Não voltava bronzeado
Mas com o corpo queimado
Parecendo um camarão

Sem ter tanta evolução
O Playstation não havia
E nenhum jogo de vídeo
Naquele tempo existia
Não tinha vídeo cassete
Muito menos internet
Como se tem hoje em dia

O meu cachorro comia
O resto do nosso almoço
Não existia ração
Nem brinquedo feito osso
E para as pulgas matar
Nunca vi ninguém botar
Um colar no seu pescoço

E ele achava um colosso
Tomar banho de mangueira
Ou numa água bem fria
Debaixo duma torneira
E a gente fazia farra
Usando sabão em barra
Pra tirar sua sujeira

Fui feliz a vida inteira
Sem usar um celular
De manhã ia pra aula
Mas voltava pra almoçar
Mamãe não se preocupava
Pois sabia que eu chegava
Sem precisar avisar

Comecei a trabalhar
Com oito anos de idade
Pois o meu pai me mostrava
Que pra ter dignidade
O trabalho era importante
Pra não me ver adiante
Ir pra marginalidade

Mas hoje a sociedade
Essa visão não alcança
E proíbe qualquer pai
Dar trabalho a uma criança
Prefere ver nossos filhos
Vivendo fora dos trilhos
Num mundo sem esperança

A vida era bem mais mansa,
Com um pouco de insensatez.
Eu me lembro com detalhes
De tudo que a gente fez,
Por isso tenho saudade
E hoje sinto vontade
De ser criança outra vez...

Escrito por Miguezim às 20h16
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15/08/2011


Dom Bosco terá caminhada dia 28

Em homenagem ao Segundo Patrono de Brasília e à Virgem de Aparecida, todos os brasilienses e visitantes estão convidados, no dia 28 de agosto, para a caminhada de Dom Bosco, que sairá às 6h do Santuário Dom Bosco, na W3 Sul. A caminhada terá uma parada na Catedral de Brasília,onde se encontra uma imagem do santo, feita de mármore, que retrata a construção da capital. Logo após, seguirá pela Esplanada dos Ministérios até a Ermida do Bosco, no Lago Sul, onde haverá celebração Eucarística, às 11h30.
Confira a programação no site: www.congressosalesiano.com.br.

Escrito por Miguezim às 22h54
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13/08/2011


Migué Fotogra, meu pai

MEU CAMPÔNIO

(Uma homenagem aos pais)

Miguezim de Princesa

Caminhavam buscando o pão da vida,

Com o suor de rostos já cansados,

A enxada nas costas, dois machados,

Uma tirrina de barro, com comida.

Uma parada de descanso – na subida.

Uma golada de água – na cabaça.

Seguiam em frente, erguendo a bela taça

Da coragem, resistência e da bravura,

Os pendões que enfeitam a agricultura,

Os grãos que alimentam toda uma raça.

De uma cova rasa nasce o pão da vida,

Que mata ainda a fome de milhões

Na terra que resiste às agressões,

Estuprada, sangrando da ferida

E da fumaça que murcha a margarida.

Também numa cova rasa uma criança,

Olhos cerrados por falta de alimento,

Não lamenta, mas exprime seu lamento

Nos que morrem devagar, sem esperança.

Meu velho pai resistiu até a morte.

Inda me lembro do chapéu de massa

Que ele entortava na testa, cheio de graça,

Exalando um cheiro de suor bem forte.

Era um cheiro tão bom que sua consorte

- minha mãe, sua companheira de jornada –

Ficou eternamente apaixonada.

Os heróis da agricultura então se amaram.

Buscando o pão da vida, eles geraram

Os grãos de sua eterna caminhada.

Um terno de linho branco que envergava

Aos domingos, imitando um burguês,

Transformava aquele lindo camponês

Que, entre um gole e outro que tomava,

A sua alegria de campônio festejava;

Na segunda, era real o mundo:

O campônio, primeiro sem segundo,

Com a enxada, a cabaça e o machado,

De alpercata de rabicho, no roçado,

Vestia uma camisa volta-ao-mundo.

Era uma camisa frágil, era azul,

Que brilhava ao sol da minha terra

Quando ele subia aquela serra,

A uma légua da Pedra do Urubu...

O velho, a sede mata com umbu.

Ao passar no umbuzeiro, um pássaro atrai

Que, com sede, em suas costas cai

E bebe o suor de sua camisa

E, satisfeito, em seu corpo desliza...

Como era bela a camisa do meu pai.

O camponês também fotografava.

Eram rostos os mais diferentes,

Rostos lindos e bocas sem dentes,

Caras de quem comia e não gostava.

Com o tripé e o caixão, ele andava

Como um trem que nunca sai dos trilhos,

Como estrelas que possuem mil brilhos,

Muito mais de mil léguas ele andava.

Andava, perdia-se na estrada e não cansava

E punha o grão na boca de seus filhos.

Surgem na vida do campônio o sindicato

E um tal de “Leis” Complementar número 11.

O troféu de ouro, prata e bronze,

Carimbado para sempre em seu retrato,

Os matutos carregam pelo mato.

E carregam porque têm certeza

De que coragem rima com beleza,

Que serão abundantes leite e mel

E que um camponês como Miguel

É como chuva no sertão de minha Princesa.

Era forte, o camponês, era valente,

Mas virava menino, com certeza,

No dia em que a linda camponesa,

Depois de amamentar, cuidar da gente,

Fazia da sua careca reluzente

O centro das atenções, quem sabe, o Céu.

O doce beijo de Emília em Miguel

Era mágico, tão mágico que ficava

Nas marcas dos beijos que ela dava

Um beija-flor desenhado num papel.

Um dia o meu lindo campônio viajou.

Fez uma viagem longa pro infinito.

Foi um vôo do pássaro mais bonito,

Tão suave e sereno que a dor

Que arrebentava o nosso peito suavizou.

Dizem que ele morreu, eu digo não.

Ele vive nas festas do Cancão,

Nos vastos campos de feijão e milho.

Vive no coração deste seu filho.

Somos um só: a mesma alma, o mesmo coração.

Escrito por Miguezim às 22h30
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30/07/2011


CORREGEDORIA DEVOLVE INQUÉRITO RELATADO EM VERSOS

   
Inquérito policial relatado em versos pelo delegado Reinaldo Lobo, da 29a Delegacia do Riacho Fundo, no Distrito Federal, foi devolvido pela Corregedoria Geral da Polícia Civil do DF para receber novo relatório final, sob alegação de atecnia.

"Manifesto a tristeza de ter um relatório final de um Inquérito Policial devolvido pela corregedoria porque fora feito em versos. Controle prévio é censura. Autonomia funcional implica autonomia intelectual", protestou o delegado.

Segue o relatório do delegado-poeta que, segundo ele, narrou todo o importante do caso concreto:

Inquérito Policial n.º 274/2011 – 29ª DP

Autor: Fabiano Alves dos Santos
Vítima: Reginaldo Chagas da Silva
Incidência: art. 180, caput, do Código Penal

R E L A T Ó R I O

Já era quase madrugada
Neste querido Riacho Fundo
Cidade muito amada
Que arranca elogios de todo mundo

O plantão estava tranqüilo
Até que de longe se escuta um zunido
E todos passam a esperar
A chegada da Polícia Militar

Logo surge a viatura
Desce um policial fardado
Que sem nenhuma frescura
Traz preso um sujeito folgado

Procura pela Autoridade
Narra a ele a sua verdade
Que o prendeu sem piedade
Pois sem nenhuma autorização
Pelas ruas ermas todo tranquilão
Estava em uma motocicleta com restrição

A Autoridade desconfiada
Já iniciou o seu sermão
Mostrou ao preso a papelada
Que a sua ficha era do cão
Ia checar sua situação

O preso pediu desculpa
Disse que não tinha culpa
Pois só estava na garupa

Foi checada a situação
Ele é mesmo sem noção
Estava preso na domiciliar
Não conseguiu mais se explicar
A motocicleta era roubada
A sua boa fé era furada

Se na garupa ou no volante
Sei que fiz esse flagrante
Desse cara petulante
Que no crime não é estreante

Foi lavrado o flagrante
Pelo crime de receptação
Pois só com a polícia atuante
Protegeremos a população

A fiança foi fixada
E claro não foi paga
E enquanto não vier a cutucada
Manteremos assim preso qualquer pessoa má afamada

Já hoje aqui esteve pra testemunhá
A vítima, meu quase chará
Cuja felicidade do seu gargalho
Nos fez compensar todo o trabalho

As diligências foram concluídas
O inquérito me vem pra relatar
Mas como nesta satélite acabamos de chegar
E não trouxemos os modelos pra usar
Resta-nos apenas inovar

Resolvi fazê-lo em poesia
Pois carrego no peito a magia
De quem ama a fantasia
De lutar pela Paz ou contra qualquer covardia

Assim seguimos em mais um plantão
Esperando a próxima situação
De terno, distintivo, pistola e caneta na mão
No cumprimento da fé de nossa missão

Riacho Fundo, 26 de Julho de 2011

Del REINALDO LOBO
63.904-4

Escrito por Miguezim às 05h05
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09/07/2011


AO LADO DA ETERNA INSPIRAÇÃO

 

MIGUEZIM DE PRINCESA

 

Zé Florentino Duarte:

O homem em forma de arte,

o talento da paixão,

o apego à sua terra,

um verso em cima da serra,

uma flor no coração.

Que Deus o tenha ao seu lado,

que é eterna a inspiração.

Escrito por Miguezim às 23h03
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06/07/2011


O  ROLETE DO PORCO

Miguezim de Princesa

 

I

Coisa boa é ter dinheiro

E nunca passar ruim,

Provar de um caviar

Ou um assado de rim

E, demonstrando poder,

Na rua assar e comer

Um gigante bacurim.

 

II

Foi isso o que sucedeu

Na Capital Federal:

Paulinho, o chefe da Força

Que chamam de Sindical,

Juntou duzentos convivas,

Os quais deram muitos vivas

E fizeram carnaval.

 

III

De tudo quanto foi canto,

Sindicalistas retados

Lotaram diversos ônibus

Oriundos dos estados,

Uns embaixo, outros em riba,

Vieram encher os quibas,

Ficar entupigaitados.

 

IV

O grupo era bem mestiço:

Tinha branco, amarelo e nego,

Com umas bandeiras amarelas

Reivindicavam emprego,

Umas bolsas contra a fome

E uma dose de Milome

Para o primeiro pelego.

 

V

Na quadra dois zero dois,

Que fica na Asa Norte,

Fizeram logo uma fogueira

Cujo fogo era bem forte,

Tomaram umas de lascar

E botaram pra assar

Um porco de grande porte.

 

VI

- É desse jeito que eu gosto -,

Foi dizendo um mais chegado.

- Lá em casa tem um porco

Que vive entupigaitado

Das moedinhas que sobram

Das obras que nunca obram

Nos escaninhos do Estado.

 

VII

Aí chegou Michel Temer,

Com um jeito de glutão,

Pegou um naco do porco,

Ficou com o toicim na mão,

Limpou a boca e as vistas,

Saudou os sindicalistas

- E viva a revolução!

VIII

Pelegos comeram tanto

Que alguns sentiram dor,

Mais umas lapadas de cana

Para aumentar o calor,

A verdade nua e crua:

Quem mora naquela rua

Quase morre com o fedor.

 

IX

A farra já ia alta

E pintou um sentimento:

Sobrava um terço do porco,

Mas, com o empanzinamento,

Um deputado bebaço

Sugeriu dar o pedaço

Para Alfredo Nascimento.

 

X

Enquanto todos comiam,

O bêbado João de Nadir

Passava tombando ao lado

E chegou a sugerir,

Com sua voz de falsete:

- Do porco deixem o rolete

Pro povo se divertir.

Escrito por Miguezim às 22h44
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DE VOLTA AOS BRAÇOS DA PRINCESA

Miguezim de Princesa

I

Tantos mares diferentes

Em busca do pão da vida;

Uma lágrima de saudade

Molhando o chão da partida...

Hoje os filhos de Princesa

Se juntam numa grande mesa

Em torno da mãe querida.

II

Espalhados pelo mundo,

Cada qual com o seu brilho,

Sem esquecer que sua terra

Da canção é o estribilho,

Pisando nos mesmos passos,

Vêem a mãe abrindo os braços

Para aconchegar o filho

III

Peço à musa da poesia

Para ficar inspirado

E, em versos muito simples,

Deixar tudo registrado,

Sem almejar obra-prima,

Trazer, numa chuva de rimas,

Recordações do passado.

IV

São nossos antepassados

Que recebem a gratidão

- homenagem afetuosa

De toda uma geração

Que, após vencer na vida,

Se reencontra hoje unida

Nesta festa de São João.

 

 

V

Os pais homenageados,

Sentindo nosso sorriso

(mesmo estando em outro plano,

O sentimento é preciso,

Basta que a alma assim queira),

Acenderão uma fogueira

Na porta do Paraíso.

 

VI

Fazendo loas à bandeira,

Como declamador fino,

Numa esquina do Céu,

Ao som de mil violinos

E de anjos de bonança,

Declamando a esperança,

Vejo NEZINHO FRANCELINO.

 

VII

Em um jardim mais à frente

(dos homens de muita fé),

Há um velho carpinteiro,

Campeão no seu mister

Do fazer com perfeição:

TIÃO DO Ó dá as mãos

Ao colega Sã José.

 

VIII

BENEDITO SABE-TUDO,

Que era nosso sabichão,

Discutia Filosofia

Em Inglês e Alemão,

Foi visto no Firmamento

Mudando a rota do vento

E consertando oração.

 

IX

O grande ZÉ SABE-TUDO

Também se encontra lá,

Com a mesma paciência

De quando vivia por cá,

Pedindo sabedoria,

Amor, paz e alegria

Ao povo deste lugar.

 

X

Plantando paz e harmonia

Num roçado de lembranças,

Encontramos Seo INHÊS,

Semeador de bonanças.

A Família Kumamoto

A cada dia colhe um broto,

Que é fruto da sua herança.

 

XI

Viva SEVERINO ALMEIDA,

Um cidadão respeitado!

Viveu vendendo tecidos

Na labuta dedicado.

Hoje, descansa orgulhoso

Por ter um filho famoso,

Secretário de Estado.

 

XII

Mestre WALDEMAR ABRANTES,

Que tanto se dedicou,

Na loja criou os filhos,

Tanto amigo cultivou

Na esquina da bondade,

Pra sempre será saudade

No peito de quem ficou.

 

XIII

Sendo o maior desportista,

MARÇAL LIMA, com certeza,

Espalhava a alegria

Para espantar a tristeza.

E, por ter sido um tesouro,

Merece um lugar de ouro

No coração de Princesa.

 

XIV

Agora vejo meu pai,

Com a camisa suada:

MIGUEL LUCENA, fotógrafo

Das lentes iluminadas,

Preciso, certeiro, exato,

Das nuvens tira retrato

Nas noites de trovoada!

 

XV

Os nossos antepassados,

Reunidos em comunhão,

Pedem que estejamos unidos,

Como amigos, como irmãos,

Agradeçamos este dia,

Festejemos a alegria

E caiamos na folia,

Que hoje é noite de São João!

Escrito por Miguezim às 18h36
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