Miguezim de Princesa


12/05/2009


O difruço da porca

 Miguezim de Princesa

 

I

Meus senhores e senhoras,

A Providência Divina

Manda mais de um recado

Para evitar a ruína:

Manda enchente e furacão,

Tormento e devastação

E até gripe suína.

 

II

É tanta notícia ruim

Emporcalhando a estrada,

Pedras de decepção

Atrasando a caminhada,

Tanta sombra na centelha,

Que até a porca velha

Resolveu ficar gripada.

 

III

O porco novo saiu

Uma noite do chiqueiro,

De manhã voltou com uma mala

Entupida de dinheiro,

Mas deu na televisão

Que um bacurim ladrão

Tinha roubado os brasileiros.

 

IV

A porca, vendo a notícia,

Entrou logo em desespero,

O bacurim de gravata

Saltou pro meio do terreiro,

Disse: “Pai também roubou,

Nosso chiqueiro aumentou

E investe no estrangeiro.

 

V

O nosso vizinho do lado

Tem castelo e avião,

Tá se lixando pro povo,

Que se dane a multidão,

O que vale é ter poder,

Um cocho pra se comer

E uma conta de um bilhão.

 

VI

Vou investir o dinheiro

Num paraíso fiscal,

Depois dizer que quebrei

E estou passando mal

Que o Estado-Barrão

Aumenta arrecadação,

Fecha escola e hospital.

 

VII

Pega todo o capital

Escorchante do intruso,

Esparrama no chiqueiro

De um jeito muito confuso,

Numa gastança de orgia

Que o porco de alegria

Sai rodando o parafuso.

 

VIII

E sai enganando a quem

Não é do mundo suíno:

Uma chita pras mulheres,

Uma chupeta pro menino

E uma cesta de comida

A quem só resta na vida

Um lampejo bem mofino”.

 

IX

Um bilhão passando fome,

Nos quatro cantos do mundo,

E quem só tem o salário

Xingado de vagabundo,

Chupa-cabra da Nação.

O negócio é ser barrão

E ter dinheiro no Fundo.

 

X

A porca indagou do filho,

De uma forma assim bem por alto:

E se a Polícia te pega

Roncando dentro do mato?

Bacurim diz: “É comédia,

É inventar uma tragédia

Que logo esquecem o assalto!”.

 

XI

E então mandou que a mãe

Ficasse logo acamada

De uma doença terrível

(Uma gripe mal curada,

Quase uma gripe espanhola),

Aí fecharam a escola,

O botequim e a estrada.

 

XII

Mandaram fazer vacina

Para o Estado comprar,

Esparramaram o produto

Por terras do além-mar

E dentro dos escritórios

Porcos de laboratórios

Lucraram até enjoar.

 

XIII

O sul se acabando em seca

E o Nordeste em enchente,

A dengue, a safra de anjos

No cortejo impenitente

E o mundo da porcaria

Inventa uma gripe vadia

Para engambelar a gente.

Escrito por mlucenafilho às 07h28
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GRAVADOR

Patativa do Assaré

 

Gravador, que está gravando

Aqui no nosso ambiente,

Tu gravas a minha voz,

O meu verso, o meu repente,

Mas gravador tu não gravas

A dor que o meu peito sente.

 

Tu gravas em tuas fitas

Com a maior perfeição

O timbre da minha voz

E a minha fraca expressão,

Mas não gravas a dor grave

Gravada em meu coração.

 

Gravador, tu és feliz

E ai de mim, o que esperar?

Bem podes ter desgravado

Quem em tua fita está,

Mas a dor do meu coração

Jamais se desgravará.

Escrito por mlucenafilho às 23h50
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10/05/2009


OS SEIOS DA TERRA

(Em homenagem às mães)

Miguel Lucena

 

Meu peito é eterna bondade-semente

da mãe-natureza, prenhe de doces frutos,

o sangue corrente nas veias da gente

é o mesmo que corre nos bichos mais brutos.

 

Meu peito é um rio de águas bem claras

que o homem moderno inda não sujou,

seu leite é o leito onde as aves mais raras

molham as belas penas quando faz calor.

 

Meu peito sacia a fome de amor

de paz e justiça dos filhos da terra.

Bicho-homem, perdido em intensa agonia,

 

Meu peito é um bálsamo que cura tua dor.

Queria que os meninos da rua e da guerra

mamassem em meu peito a eterna alegria.

Escrito por mlucenafilho às 19h48
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