O coração de manteiga do policial
Innocêncio de Jesus Viégas Escritor e membro da Academia Maçônica de Letras
Normalmente quando um policial comete um desatino, por imperícia ou mesmo por imprudência, o mundo da mídia, sem antes avaliar o caso, apregoa aos quatro ventos, generalizando o fato como se todos os policiais fossem culpados.
Hoje quero também gritar à rosa dos ventos anunciando o meu agradecimento e louvando a atitude exemplar de dois jovens policiais civis.
Dia 30 de julho de 2009 fui ao supermercado. Depois das compras rumei para a esteira rolante e logo encontrei um jovem músico improvisando em um teclado eletrônico as músicas do meu tempo de rapaz. Parei embevecido para ouvir o bolero “Perfídia”, dos meus anos dourados.
Parecia estar bailando nos salões sociais da minha saudosa São Luís do Maranhão, ao som das grandes orquestras como o Jazz Alcino Bílio, do Maestro Chaminé, e tantas outras. O CD estava à venda e logo comprei um exemplar.
Segui para o estacionamento, carreguei o carro com as compras, coloquei o CD sobre o capô, abri a porta, entrei e saí dirigindo todo serelepe, isso à tardinha.
A saída do mercado é em declive e desemboca em uma pista com muito trânsito, no final da Asa Norte. Parei aguardando a vez e logo ao meu lado parou também uma viatura da Polícia Civil.
Preocupado em não atrapalhar os policiais, procurei sair logo da frente deles e, na primeira oportunidade e com segurança, “ferrei as esporas no meu burro velho” – um Ford Versailles 93 – e arranquei cantando os pneus como nos velhos tempos de moleque. É que eu agora estou com os meus 72 anos bem vividos.
O carro da polícia passou a buzinar freneticamente atrás de mim. Continuei correndo, fiz o retorno e segui em direção à Água Mineral, que é o caminho para as montanhas do Grande Colorado, em Sobradinho.
Dei uma olhada no retrovisor e lá vinha o camburão a todo o vapor e com a sirene cantando.
Diminui a velocidade para 60Km/h e continuei na pista. O camburão emparelhou comigo e o policial fez aquele gesto característico de mandar o infrator para o acostamento. Eu só pensava no noticiário do meio-dia na TV, no dia seguinte, e eu ali na telinha como protagonista de mais um caso de imprudência.
O policial saltou esboçando um largo sorriso, estendeu o braço na minha direção e disse:
- Amigo, aqui está o CD que caiu do seu carro!
- Ufa! Que alívio meu Deus!
Ele sorri por ver o meu estado de espanto. Eu sorri também e agradeci tamanha gentileza.
Olhei docemente para o policial e vi naquela hora toda bondade, lhaneza, cordialidade e satisfação do dever cumprido, estampado no “espelho brilhante dos seus olhos”.
Eles seguiram em direção oposta a minha, indicando que foram ao meu encalço só para me entregar o CD.
Para muitos, talvez nada signifique esse acontecimento. Para mim, um momento raro de amor ao próximo.
Vai ver que esses dois meninos ao verem o disco e lerem o seu rótulo, logo lembraram dos seus velhos pais, da alegria dos bons tempos e pensaram com os seus botões:
- Não vamos deixar esse “coroa” sem esta preciosidade. E assim o fizeram.
Fica aqui o meu eterno agradecimento não só a esses dois policiais civis como também a todos os demais agentes da lei que militam todos os dias no rigoroso cumprimento do sagrado dever de proteger a população.
Nas minhas orações vou elevar preces ao Supremo Criador dos Mundos, pedindo a Ele proteção e amparo a esses meninos de ouro que foram para mim a personificação da bondade e do amor.
Obrigado meus amigos, o coração de manteiga de vocês falou mais alto. Mesmo não me achando culpado, prometi a minha esposa, a Bel, não arrancar violentamente com o “burro velho” nas estradas da minha existência.
Mas que tomei um susto...tomei!



Leia este blog no seu celular