Miguezim de Princesa


03/10/2009


cangagay

Adamado devidamente paramentado para o desfile de figos de Serra Telhada

 * * *

FRANGA SOLTA NA TERRA DE LAMPIÃO

Miguezim de Princesa

I
Quem tem o seu pode dar
A quem quiser ou entender.
Quem não quiser dar de graça,
Pode dar preço e vender.
Todos são livres pra amar
Do jeito que escolher.

II
Há, porém, nos dias modernos
Uma grande exibição:
Nas praças, nos shopping-centers,
Só se vê esfregação,
Um motel a céu aberto
De gente passando a mão.

III
Garotos de 12 anos
Se beijando no salão;
Coroas com bucho de chopp
Procurando azaração;
Mulheres se alisando
Numa bolha de sabão.

IV
É neste novo cenário
Onde reina a confusão,
Que o movimento gay
Aproveita a ocasião
Para ir soltar a franga
Na terra de Lampião.

V
É lá em Serra Talhada,
No coração do Sertão,
Cafundó de Pernambuco,
A terra de Lampião,
E de Inocêncio Oliveira,
Um deputado machão.

VI
Soube que André Pucinelli,
Do Mato Grosso do Sul,
Vai estar na passeata
Com uma regata azul,
Promete com Carlos Minc
Fazer grande sururu.

VII
Luiz Mott da Bahia
Já comprou um pistolão,
Uma botina de couro,
Dois punhais e um facão,
Para puxar o desfile
Vestido de Lampião.

VIII
A muié de Jaquevague
Se encheu de laços de fita,
Combinou com uma amiga,
Por sinal muito bonita,
Pra se vestir de Dadá,
Ela de Maria Bonita.

IX
Vamos ter muitos artistas
E até político arisco.
Uma fonte me contou,
Assumindo todo o risco,
Que Caetano, Gal e Gil
Vão desfilar de Corisco.

X
O dia 3 de outubro
Vai ficar assinalado,
Nos anais da nossa história,
Como o dia indigitado
Em que a terra sertaneja
Virou terra de viado.

Escrito por mlucenafilho às 22h06
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AGRURAS DA LATA D'ÁGUA

Jessier Quirino

E eu que fui enjeitada
Só porque era furada.
Me botaram um pau na boca,
Sabão grudaram no furo,
Me obrigaram a levar água
Muitas vezes pendurada,
Muitas vezes num jumento.

Era aquele sofrimento,
As juntas enferrujadas.
Fiquei com o fundo comido.
Quando pensei que tivesse
Minha batalha cumprido,
Um remendo me fizeram:
Tome madeira no fundo
E tome água e leva água,
E tome água e leva água.

Daí nasceu minha mágoa:
O pau da boca caía,
Os beiços não resistiam.
Me fizeram um troca-troca:
Lá vem o fundo pra boca,
Lá vai o pau para o fundo.
Que trocado mais sem graça
Na frente de todo mundo.
E tome água e leva água
E tome água e leva água.

Já quase toda enfadada,
Provei lavagem de porco,
Ai mexeram de novo:
Botaram o pau na beirada.
E assim desconchavada,
Medi areia e cimento,
Carreguei muito concreto
Molhado duro e friento,
Sofri de peitos abertos,
Levei baque dei peitada.

Me amassaram as beiradas,
Cortaram minhas entranhas.
Lá fui eu assar castanha,
Fui por fim escancarada.
Servi de cocho de porco
Servi também de latada.

Se a coisa não complica,
Talvez eu seja uma bica
Pela próxima invernada.
E inverno é chuva, é água,
E eu encherei outras latas
Cumprindo minha jornada.

 

Escrito por mlucenafilho às 22h02
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MATUTO DOENTE DAS PARTES


No tronco do ser humano,
Nos “finar” mais derradeiro
Tem uma rosquinha enfezada
Que quando tá inflamada
Incomoda o corpo inteiro
Se tossir, se faz presente
E se chorar se faz também

O “cabra” não pode nada
Com nada se entretém
Eu lhe digo, meu “cumpade”
Não desejo essa “mardade”
pra rosca de seu ninguém

Não sei o nome da cuja
Desta cuja eu tiro o ja
O que resta é quase nada
Bote o nada na parada
Quero ver tu agüentar

Eu lhe digo meu “cumpade”
Que é grande humilhação
Um cabra do meu quilate,
Adoecido das parte,
Fazer uma operação

Não suportando mais dor,
O meu ato derradeiro
Foi procurar um doutor
Do bocado arengueiro

Do bocado arengueiro,
Feijoeiro, fiofó, bufante,
Frescó, lorto, apito,
Brote e bozó.
De furico, fedegoso,
Piscante, pelado, boga,
Fosquete, frinfra, sedém
Zueiro, ficha, vintém,
De ás de copa e de foba.
De oiti, “oi” de porco,
“ané” de couro e cagueiro,
De girassol, goiaba,
Roseta, rosa,
Rabada, boto, zero,
“miaieiro”, de nó dos fundo,
Buzeco, de sonoro e pregueado,
Rabichol, furo, argola,
“ané” de ouro e de sola,
Boca de “veia” e zangado

 

Um doutor de aro treze,
De peidante e zé de boga,
Que não aperte o danado
Nem deixe com muita folga, “né”?
Um doutor “picialista” em bocada tarraqueta,
Doutor de quinca, dentrol,
Zé besquete, carrapeta
Doutor de rosca,
Rosquinha, tareco,
Frasco e obrón
Ceguinho, botico, zero,
Tripa gaiteira, fonfom,
“miaieiro”, mucumbuco,
Boraco, proa, polgueiro,
Forever, cloaca, urna,
Gritador, frango e fueiro

Cano de escape, pretinho,
Rodinha, x.p.t.o.,
Zerinho, “subiador”,
Tripa oca e fiofó
Um doutor de elitório ou de boca de caçapa
Que não seja inimigo,
Também não seja meu chapa
Tratador de canto escuro,
De boréu e de cheiroso,
De formiróide alvado,
De parreco e de manhoso,
De xambica e sibasol,
Apolônio e fobilário,
Bilé, brioco e “roxim”
Fresado, anilha e cagário
Vaso preto, zé careta,
Olho cego e espoleta,
Fuzil, fioto e foário

Não é doutor de ovário,
É doutor de orió!
De cá pra nós e bostoque,
De futrico e de ilhó,
De coliseu e caneco,
Roscofe, forno e botão
De disco, de farinheiro,
De jolie, fundo e fundão,
De cuovades, fichinha,
Que não vinha com gracinha
E que não tenha o dedão.
Um doutor de zé de quinca,
Canal dois e cagador
Buzina, vesúvio, cego,
Federais, sim senhor
“fagüieiro”, zé zoada,
Rosquete e fim de regada
Eu só queria um doutor!

O doutor se preparou-se,
Parecia galileu
Aprumou um telescópio
Quem viu estrela fui eu
Ele disse:
“arriba as pernas”
Eu disse:
“tenha calma, sonho meu”
A partir daquela hora,
Perante nossa senhora,
Não sei o que “assucedeu”

Com as forças da humildade,
Já me sinto mais “mior”
Me desejo um ânus novo,
Cheio de “velso” e forró
E pros “cumpade”, com franqueza,
Desejo grande riqueza:
Saúde no fiofó.

Escrito por mlucenafilho às 22h00
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30/09/2009


O JUIZ E O LADRÃO

Bráulio Tavares


Toda vez que um soldado de polícia
Leva preso um filhinho-de-papai
Meia hora depois ele já sai
Com propina na hora mais propicia
Toda vez que um jornal dá a notícia
Dos trambiques de algum parlamentar,
Noutro dia precisa apresentar
Desmentidos de toda a redação...
Toda vez que um juiz prende um ladrão,
Chega outro juiz, manda soltar!

Quando algum promotor ter a coragem
De enfiar sua mão nesse vespeiro
Chega um fax e manda bem ligeiro
Que ela mexa com outro personagem
Se o Congresso descobre sacanagem
E promete depressa investigar
Muita gente começa a encomendar
Uma pizza gigante pro salão...
Toda vez que um juiz prende um ladrão,
Chega outro juiz, manda soltar!

Mesmo quando um ladrão endinheirado
Por acaso pernoita na cadeia
Ele tem boa cama e boa ceia
Numa cela com ar refrigerado.
Sendo o caso de ser um magistrado,
Tem direito a tv e frigobar
Tem cozinha francesa no jantar
E cobertas de seda no colchão...
Toda vez que um juiz prende um ladrão,
Chega outro juiz, manda soltar!

Outro caso na historia brasileira
É o juiz conhecido por Lalau
Que roubou cem milhões dum tribunal
E escondeu do outro lado da fronteira
O juiz vai em cana terça-feira
E na sexta já mandam libertar
Não tem homem que faça ele passar
Sete dias seguidos na prisão...
Toda vez que um juiz prende um ladrão,
Chega outro juiz, manda soltar!

No Brasil tem industria madeireira
Derrubando floresta em todo Estado
E às vezes vem um advogado
Traz a lei, e interrompe essa sujeira
Mais aí um ricaço abre a carteira
Compra a peso de outro a liminar
E na mata se volta a escutar
Motosserra, machado e caminhão...
Toda vez que um juiz prende um ladrão,
Chega outro juiz, manda soltar!


TAVARES, Braulio. Os martelos de Trupizupe. Natal: Engenho de Arte, 2004.

Escrito por mlucenafilho às 19h10
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BANDEIRA CHAMUSCADA (ZELAYA POR NÓS)

 

Miguezim de Princesa


I
Confirma Celso Amorim,
Todo cheio de bravuras,
Que o tal Mané Zelaya
Se agarrou com a rapadura,
Por isso foi deflagrado
O golpe lá em Honduras.
II
O poder é muito bom,
Desperta amor e paixão,
Inveja, ódio e cobiça:
Zelaya teve uma comichão
De querer mais um mandato
Contra a Constituição.
III
Aqui tentaram um terceiro,
Porém Lula disse não,
Certamente teve medo
De uma grande reação
De quem sempre respirou
Sopros de renovação.
IV
Quem enfrentou ditadura,
Passou a vida a sofrer
Pra que o Brasil tivesse
Alternância de poder,
Ambição de algum caudilho
Não poderia  defender.
V
Chaves na Venezuela
Zelaya quis imitar;
Correia no Equador,
Que no poder quer ficar,
E Morales na Bolívia,
Que é mestre em calotear.
VI
Quando Zelaya em Honduras,
Com aquele chapelão,
Disse que queria ficar,
Mudar Constituição,
O Supremo o acusou
De cometer traição.
VII
De uma lapada só,
Sem ter dó nem ter clemência,
Botaram Zelaya pra fora
(Chega sentiu uma ardência)
E o presidente da Câmara
Assumiu a Presidência.
VIII
Nas ruas de Tejucicalpa
Houve manifestação,
Com o povo protestando
Contra a deposição,
Querendo Zelaya de volta
No Governo da Nação.
IX
Uma parte dos hondurenhos,
Que é contra a reeleição,
Também saiu para as ruas
Provocando confusão,
Defendendo a cláusula pétrea
De sua Constituição.
X
Zelaya pediu a Lula
Ajuda para voltar.
Depois de quatro lapadas
De cachaça Paladar,
Lula se encheu de coragem
E prometeu ajudar.
XI
Junto com Jorge Ferreira,
Que levou a feijoada,
Um tutuzinho à mineira
E uma boa costela assada,
Plano Zelaya foi traçado
Às quatro da madrugada.
 
 
XII
Marco Aurélio apareceu
Comendo mamão papaia,
Ainda fez top-top
Pra uma moça de Itatiaia
E disse assim, num rompante:
- Sou eu que levo Zelaya.
XIII
Saíram aqui do Brasil,
Vestiram Zelaya de freira,
Chegaram em El Salvador,
Atravessaram a fronteira
E de manhazinha entraram
Na Embaixada Brasileira.
XIV
Dali atiçaram o povo:
O tiroteio começou,
Top-top não é besta,
Pulou o muro e vazou
E o vestido de freira
Ninguém por lá encontrou.
XV
Dizem que viram uma freira
Com uma manta azul
E uma barba grisalha
Degustando uma Caracu,
Atravessando a fronteira
Com o Mato Grosso do Sul.


XVI
Enquanto isso em Honduras,
Fala mais alto o fuzil:
Cada um quer o poder
Para encher o seu barril
de riquezas confiscadas,
Mas quem fica chamuscada
É a Bandeira do Brasil!

Escrito por mlucenafilho às 23h33
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